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quinta-feira, 17 de março de 2011

Dossiê do Apito: tudo sobre a máfia que anulou jogos do Brasileirão-2005


A descoberta das falcatruas de Edílson Pereira de Carvalho foi apenas o apito incial de um jogo sujo e antigo. Nas próximas páginas, PLACAR disseca o estrago das arbitragens no Brasileirão 2005, na Série B e até na “Era Parmalat”*
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Especial Máfia do Apito:
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A máfia do apito, detalhe por detalhe
Saiba, em 11 perguntas e respostas, tudo o que aconteceu e ainda pode acontecer no escândalo de arbitragem que manchou o futebol brasileiro
1 – Por que todos os 11 jogos apitados por Edílson Pereira de Carvalho no Brasileiro foram anulados?
Luiz Zveiter, presidente do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, procurou os promotores José Reinaldo Guimarães Carneiro e Roberto Porto, que cuidam das investigações sobre a Máfia do Apito, dois dias depois da prisão de Edílson, no dia 26 de setembro. Esperava receber uma lista detalhada do Ministério Público, contendo quais jogos foram vendidos e quais estariam limpos. A resposta que recebeu o deixou sem reação. “Dissemos que, na visão do MP, todos os jogos que esses caras apitaram em 2005 estão contaminados”, diz Carneiro. Ele explicou que não era missão do MP listar os jogos efetivamente vendidos, mas, sim, levantar provas da ação criminosa do bando, o que já estava feito. Depois, Zveiter foi à carceragem da Polícia Federal ouvir o que o ex-árbitro tinha a lhe dizer. Tinha a esperança de que o próprio Edílson pudesse lhe esclarecer quais jogos foram, de fato, fraudados. A conversa aconteceu dentro na sala do superintendente da polícia. Edílson sentou-se na ponta de uma mesa oval, como se estivesse chefiando a reunão. Desandou a falar sobre sua participação na Máfia do Apito. Parecia até orgulhoso da fama. O presidente do STJD concluiu que era impossível aproveitar seu depoimento para tomar uma decisão sóbria sobre o que fazer com os jogos. Como o calendário do campeonato exigia uma solução rápida, por causa da disponibilidade de datas para refazer os jogos, Zveiter chamou para si a resonsabilidade e concedeu a liminar que anulou os 11 jogos.
Edílson Pereira de Carvalho, ex-árbitro de futebol
Foto: Antonio Milena
Edílson foi o pivô de um dos maiores escândalos do futebo brasileiro
2 – Mas existem provas de que todos os jogos estejam contaminados?
Não existem. As escutas telefônicas feitas pela polícia começaram apenas no dia 2 de agosto, quando Edílson já havia apitado 20 das 26 partidas em que trabalhou este ano e Danelon, 14 dos 15 jogos. Estavam grampeados os telefones dos apostadores Nagib Fayad, o Gibão, líder da Máfia, e de um de seus sócios, o advogado Daniel Gimenes, além dos números dos dois árbitros. As escutas mostram que Edílson fraudou a partida Vasco 2 x 1 Figueirense, no dia 7 de agosto, e tentou fraudar, sem sucesso, Juventude 1 x 4 Figueirense, no dia 24 de julho, e Santos 4 x 2 Corinthians, em 31 de julho (apesar de as datas serem anteriores ao começo das escutas, em agosto os criminosos ainda conversavam sobre os jogos passados). Curiosamente, foram apenas estas as partidas que Edílson confessou ter vendido em seu depoimento à polícia. As gravações ainda mostram que o ex-juiz se ofereceu para fraudar Inter 3 x 2 Coritiba, São Paulo 3 x 2 Corinthians e Fluminense 3 x 0 Brasiliense, mas não está claro se houve ou não acerto com os bandidos. Nas duas primeiras, o site Aebet, que era usado para fazer as apostas de maior valor da Máfia, não cotou os jogos, pois já estava desconfiado do esquema.
3 – Se não há provas, por que os promotores julgam que todas as partidas estejam contaminadas?
Porque há vários indícios que mostram que Edílson mentiu à polícia e ao MP quando confessou sua participação apenas nestes três jogos. “Não existe alguém que seja meio corrupto, que aceita vender um jogo e se negue a fazer parte do esquema na partida seguinte”, diz o promotor José Reinaldo Guimarães Carneiro. O fato de o site Aebet não ter cotado alguns jogos de Edílson também não era problema para Gibão. O líder da Máfia do Apito – descobriu-se após a sua prisão – mantinha uma própria banca de apostas e disse aos promotores que, se o Aebet fechava apostas nos  jogos de Edílson, sempre era possível achar algum outro site que as aceitasse. “Lugar onde apostar não é problema.” E tem mais: Gibão disse em seu depoimento estar desconfiado de que o próprio Edílson fazia apostas, ou seja: vendia a vitória de um time para Gibão e apostava ele próprio na vitória do adversário. Nenhuma das 11 partidas apitadas por
ele acabou em empate. Gibão, porém, confessou o acerto com Edílson também apenas em três jogos.
4 – Edílson fazia jogo duplo mesmo?
O computador do ex-juiz foi apreendido e, até agora, a perícia não revelou que Gibão tinha razão. Mas, como Edílson tinha amizade com criminosos de Jacareí, os promotores afirmam: “Não descartamos a hipótese de jogo duplo, financiada por outros bandidos que não faziam parte do esquema de Gibão”. Mas “não descartar” é bem diferente de estar provado.
5 – Zveiter foi coerente?
Não. Pelo menos até o fechamento desta edição. Se o presidente do STJD aceita a tese de que todos os jogos apitados pelos juízes estão contaminados, como explicar que simplesmente nenhuma medida foi tomada em relação aos quatro jogos apitados por Danelon na Série B?
Zveiter
Foto: Daryan Dornelles
Zveiter decidiu anular 11 partidas
6 – Mas por que anular jogos, como Juventude 1 x 4 Figueirense e Santos 4 x 2 Corinthians, nos quais as escutas mostram que Edílson não conseguiu fazer o resultado planejado?
Além do “não descarte ao jogo duplo”, a Justiça Desportiva prevê anulação de jogos em que o juiz tenha, comprovadamente, alterado o resultado. Aí, cabe uma interpretação da lei: entrando em campo prediposto a favorecer uma equipe, Edílson pode ter alterado, sim, o placar dos jogos. Por exemplo: ele tentou favorecer o Juventude contra o Figueirense (reconheceu que marcou até um pênalti inexistente para o time de Caxias nesta partida, que acabou desperdiçado). Em vez de 4 x 1 para a equipe de Santa Catarina, o jogo poderia ter terminado 6 x 1, 8 x 2. Como saldo de gols é critério de desempate, a partida também fica “contaminada”. Sem falar nos cartões indevidos que pode ter distribuído.
7 – Danelon fraudou também a Série B?
Ele disse que fez parte do esquema no primeiro semestre, durante o Paulista, mas se recusou a continuar vendendo jogos na Séria B do Brasileiro. O MP sabe que ele mentiu. Antes de as escutas começarem, a revista Veja apurou que a partida Portuguesa 0 x 4 Ituano, em 10 de junho, pela Segundona, foi fraudada pelo ex-juiz. Ele também negociou para fraudar Ituano x Marília, dia 13 de junho (terminou 2 x 1 para o Ituano), mas as investigações não concluíram se houve acerto.
8 – O que aconteceria se os jogos apitados por Danelon na Série B fossem anulados?
Uma confusão ainda maior do que na Série A. O rebaixamento do Vitória poderia ser cancelado. Por isso, a Federação Bahiana é a maior interessada em anular os jogos. Zveiter ainda não tomou uma posição.
9 – O árbitro Héber Roberto Lopes também estava no esquema?
O nome do juiz foi citado por Gibão em depoimento à CPI dos Bingos como alguém que seria “caseiro”, ou seja, favoreceria os times mandantes. Por isso, Edílson teria lhe dado a dica para apostar na coluna 1 em Botafogo x Juventude. Daí a dizer que ele faz parte do esquema, ou seja, recebeu dinheiro para fabricar resultados, vai uma longa distância. Seu nome não aparece nas escutas telefõnicas feitas pela PF.
Paulo José Danelon, ex-árbitro de futebol
Foto: Agência Luz
Danelon contaminou resultados da Série B em 2005
10 – Por que os jogos do Paulista apitados pela dupla tiveram uma decisão completamente diferente: uma comissão analisou jogo por jogo para decidir qual deve ser anulado?
Porque as decisões sobre os campeonatos estaduais são tomadas, em primeira instância, pelos Tribunais de Justiça Desportiva de cada estado – se algum clube recorrer, o caso vai para o STJD, no Rio, que dá a palavra final. O TJD de São Paulo entendeu que montar uma comissão, presidida pelo ex-árbitro Sidrack Matrinho, seria a melhor solução. A primeira idéia de Zveiter era fazer o mesmo com o Brasileiro. Mas a comissão designada para a tarefa, presidida pelo também ex-árbitro Léo Feldman, concluiu que era impossível chegar a alguma decisão razoável analisando os teipes. Outra diferença entre as decisões do tribunal de Zveiter e o da Federação Paulista é que, para o segundo, a palavra de Edílson e Danelon deve ser levada a sério na hora de separar quais jogos foram fraudados e quais não foram.
11 – O que pode acontecer no Paulista?
Os jogos apitados pela dupla poderiam alterar apenas o rebaixamento. O título do São Paulo, que terminou com oito pontos de vantagem sobre o segundo colocado, não estaria em risco.
Os 40 jogos “contaminados”
Veja todos os jogos apitados por Edílson e Danelon em 2005 e que se tornaram automaticamente suspeitos após a divulgação do escândalo da  “Máfia do Apito”
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COPA LIBERTADORES
23/2
BANFIELD 3 X 2 ALIANZA LIMA
 (Árbitro: Edílson Pereira de Carvalho)
Na véspera, Edílson se encontrou com Wanderlei Pololi, emissário da Máfia do Apito, no aeroporto internacional de Guarulhos. Acertaram que o ex-juiz receberia 10 mil reais para garantir a vitória do Banfield. O resultado, válido pela segunda fase, foi decisivo para a classificação do time argentino, apesar de não se “perceber a mão” de Edílson no jogo.
Edílson Pereira de Carvalho no jogo Santos André x Palmeiras pela Libertadores de 2005
Foto: Arquivo PLACAR
Edílson apitou até na Libertadores. Teve esquema?
19/4
SANTO ANDRÉ 2 X 1 PALMEIRAS (Árbitro: Edílson Pereira de Carvalho)
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No ar, a guerra pelo esporte


Esta semana, relembraremos como a briga pela audiência levou a Manchete a comprar os direitos de transmissão dos jogos das finais da Copa Brasil (Campeonato Brasileiro de 1986) entre São Paulo e Guarani, o que motivou a Globo a buscar exclusividade em diversas outras modalidades.
Careca e Tosin durante a final do Campeonato Brasileiro de 1986
Foto: Antonio C. Mafalda
Direitos de televisão da final do Brasileiro de 1986 motivou guerra das emissoras por exclusividade e audiência esportiva no Brasil
Setembro de 1950. Os paulistanos que saíam do trabalho, sempre apressados, naquele dia 18 estancaram diante de enormes caixas espalhadas pelas praças do centro da cidade. E foi aos sobressaltos que acompanharam o prodígio. Nas caixas, surgia a imagem sorridente da então jovem cantora Hebe Camargo. Aplausos, admiração e êxtase. Inaugurava-se a TV Tupi. O Brasil ingressava na aldeia global.
Feita a luz, ou melhor, as ondas eletromagnéticas hertzianas, o país ganhou uma nova paixão. Desde a aparição do indiozinho, que simbolizava a extinta Tupi, o outro lado da telinha não parou de se aprimorar. Transmissão em cores, computadores e satélites fazem parte do cotidiano das noventa emissoras que atualmente disputam a atenção dos telespectadores brasileiros. Toda essa sofisticada técnica desenvolveu-se da dura batalha pela audiência.
Nesse universo de novelas e enlatados, musicais e desenhos animados, cada vez mais destaca-se a programação esportiva. O rico filão de saques, braçadas, cestas, bólidos e – principalmente – gols transformou-se numa luta à parte da guerra por maior público. Só no Estado de São Paulo, por exemplo, sete emissoras dedicam 54 horas e meia semanalmente para o esporte. No Rio de Janeiro, a cada semana o carioca pode acompanhar 36 horas e 10 minutos de programação esportiva, em cinco canais de TV. “O esporte tem uma audiência fiel”, diz Paulo Matiussi, diretor-executivo de esporte da Bandeirantes, que manda ao ar o Show do esporte, com mais de 8 horas de duração, aos domingos.
A briga pelo espectador, que já está acirrada, ganhou força no final do mês passado, com as finais da Copa Brasil. Na ocasião, São Paulo e Guarani negociavam a transmissão das duas partidas com um pool formado por Globo, Record e Bandeirantes. Os clubes não aceitavam os 3 milhões de cruzados oferecidos e acabaram beneficiados pela Manchete, que chegou aos 4 milhões em troca da exclusividade do evento. Estava armado o conflito.
Liderança ameaçada – “Inflacionaram o mercado”, acusa Sílvio Luiz, narrador e diretos de esportes da Record. “Foi um comportamento antiético”, acrescenta Paulo Matiussi. “Afinal, há quase dois anos o pool funcionava bem, com consultas e negociações de alto nível”, completa. “Não fizemos nada de errado”, defende-se Alberto Leo, editor-chefe de esportes da Manchete. “Apenas oferecemos uma proposta melhor”.
Mas foi no Jardim Botânico, no Rio, onde está a sede da Globo, que a investida da Manchete teve maior ressonância. A cúpula da emissora já andava apreensiva desde o ano passado, quando detectara a perda de preciosos pontos no Ibope com a maciça programação esportiva da Bandeirantes – que chegou meia dúzia de vezes ao primeiro lugar com as lutas de Adílson “Maguila” Rodrigues ou os jogos da Seleção de Seniores. A maior preocupação da Globo, contudo, é mesmo a Manchete, que, especialmente no Rio, já começa a incomodar a liderança global. Por isso foi armada uma estratégia que prevê combates nos setores em que a concorrente se tem destacado. E, nesse caso, o esporte assume posição privilegiada.
A Globo pretende jogar pesado. Assim, além da reestréia do Esporte Espetacular aos domingos à noite, saiu a campo atrás de transmissões exclusivas a todo vapor. Com a FOCA – Associação dos Construtores de Fórmula 1 – fechou contrato para mostrar os dezesseis GPs da temporada. Por intermédio da empresa paulista Traffic, garantiu também onipresença no televisamento do Torneio Pré-Olímpico de Futebol (abril) e da Copa América (junho). J. Hawilla, o dono da Traffic, continua empenhado em obter direitos de transmissão de mais eventos para renegociá-los. “Quem compra exclusividade ganha prestígio”, ensina. Hawilla não confirma que a Globo tenha investido 1,2 milhão de dólares pelo Pré-Olímpico e Copa América – 500 000 dólares além do que as outras haviam oferecido.
E a Globo não pára. Leonardo Gryner, responsável pelo departamento de esportes, recebeu ordens da direção de entrar sozinho em tudo o que for possível. Assim, a CBF já recebeu uma proposta de 120 000 dólares por partida da Seleção na excursão à Europa, em maio. Do mesmo modo, estão acertados com São Paulo e Guarani os jogos da Taça Libertadores. E a emissora não pretende repassar a nehuma das chamadas co-irmãs tais transmissões. “Não vamos abrir mão de nossos direitos”, assegura Gryner.
Temores fundamentados – Sobretudo o giro da Seleção vai dar o que falar. “A Seleção é patrimônio de todos os brasileiros, não da Globo”, choraminga Alberto Leo. “Otávio Pinto Guimarães me garantiu que não decide nada sem consultar a gente”, garante Paulo Matiussi.
Num ponto todos concordam: é impossível concorrer com o poderio financeiro da Globo. “Não queremos fazer frente a eles”, dissimula Leo, da Manchete. “Temos só quatro anos de vida e nossa intenção é nos fixarmos como a segunda emissora brasileira”, afirma. De São Paulo, Sílvio Luiz anuncia a tática da Record diante do apetite da Globo pela exclusividade: “Vamos partir para a guerrilha”, apresentando fatos recentes, como o jogo do Sâo Paulo em Miami. A Bandeirantes, por sua vez, pretende continuar em seu estilo. “Não somos só futebol, e vamos prosseguir concorrendo com outros esportes”, explica Matiussi. Ele prega a volta do funcionamento do pool como solução para todos. “Ganha-se uma saudável competição de qualidade”, preconiza. “E barateiam-se os custos”, completa Sílvio Luiz. “Caso contrário, vai continuar a guerra que se vê agora”. Tudo indica que os temoresde Sílvio têm fundamento. A Manchete praticamente garantiu o Pré-Olímpico de vôlei masculino (maio), mas este ano reserva mais batalhas, como os Jogos Pan-Americanos (agosto) e o Mundial de Juniores de Futebol (outubro).
Fazendo vencedores e derrotados, a briga do lado de lpá da telinha promete seguir firme e forte. Sorte do pessoal do lado de cá, que poderá assistir a tudo de camarote – ou melhor, confortavelmente acomodado em sua poltrona.
* Matéria originalmente publicada na edição 878 – 30/MARÇO/1987